Cel. Francisco D9ias Coelho

Faz alguns anos, estive na cidade de Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, no alto Sertão da Bahia, e procurei informações sobre o Coronel Dias Coelho, acerca de quem havia ouvido grandes comentários acerca do seu poder financeiro e político e sua capacidade de comandar aquela grande Região desde esta urbe nos anos 1920/1930, época de outros também importantes chefes políticos sediados em lugares próximos. Levaram-me até uma capela anexa a um casarão antigo e me disseram que ali ele havia morado e rezado e dali mandara em tudo da localidade e circunvizinhanças.
No interior da capela havia u’a bonita e enorme (quase alcançando o teto)imagem da Nossa Senhora Virgem Maria, e um quadro do tamanho de uma janela com o qual me surpreendi por ser incomum: a litogravura do busto de um negro retinto e bem tratado, cabelo aparado curto modelo militar, barba escanhoada e bigodes retorcidos para cima, fardado de Coronel da Guarda Nacional, e sob ela, em caprichada caligrafia manuscrita, a dedicatória de todos os outros Senhores de Terras, Chefes Políticos e Coronéis das Lavras Diamantinas, com suas respectivas assinaturas, ao Coronel Francisco Dias Coelho.
Soube, então, que ele quando ia a Salvador levava pequenos sacos contendo diamantes/brilhantes, vestia-se e se perfumava da cabeça aos pés seguindo a melhor moda parisiense, hospedava-se no mais luxuoso quarto do melhor hotel da capital bsiana, era servido nos melhores restaurantes soteropolitanos e gostava de presentear as pessoas do seu agrado com pequenas pedras preciosas, mantendo o seu filho primogênito com o que havia de melhor na Faculdade de Medicina da Bahia, e sendo convidado para as “soirées” da alta sociedade baiana, pela qual era sempre consultado sobre negócios e política.
O menino afrodescendente Francisco nascera livre, de família humilde do interior baiano, na época da escravatura no Brasil,
perdera a mãe aos sete anos de idade e fôra acolhido, juntamente com uma irmã, na casa de um rico comerciante e proprietário sem filhos.
Foi este forte negociante, o senhor Dias Coelho, quem
o encaminhou na vida para o ramo da garimpagem e da mineração e lhe transmitiu o conhecimento profundo sobre pedras preciosas, ensinando-lhe sobre tudo, a falar e ler francês e a como negociar as gemas, principalmente com os compradores estrangeiros.
Porque Francisco era um moço muito atilado, simpático, trabalhador e apegado com o pai adotivo, desenvolveu-se bem e constituiu em torno de si um bom círculo social, vindo mais tarde a ser o substituto, sucessor e herdeiro do velho Dias Coelho, de quem recebeu o sobrenome, quando adquiriu a carta-patente de Coronel da Guarda Nacional, e foi chamado de Diplomata Negro, chegando a se tornar o líder dos senhores chefes políticos e coronéis das Lavras Diamantinas entre os anos de 1909 e 1917, quando foi sucedido pelo seu filho doutor e também benfeitor daquelas terras.
Acumulou uma enorme fortuna, como negociante de diamantes garimpados em suas minas naquela região, onde coligou-se com empresas francesas interessadas em pedras preciosas.
Como todos os Coronéis, praticou a política do autoritarismo, do favoritismo, da permuta de apoios e foi além, ocupando posição do mais elevado respeito diante dos habitantes de Morro do Chapéu e de toda a Chapada Diamantina, para onde levou escolas com o objetivo social, político e estratégico de melhor dominar legalmente aquela Região.
Sendo um autodidata dedicado de boa formação cultural, a partir de 1902 contratou professoras e criou ali, como suporte das escolas, bibliotecas, um grêmio literário, um grupo teatral e uma filarmônica, e dez anos depois havia escolarizado todo o seu município e boa parte dos municípios vizinhos, formando seus eleitores, porque somente os alfabetizados podiam
votar.
Devido aos seus grandes negócios com ricas firmas gaulesas, através das quais conseguiu aquela imagem da Santa para a sua cidade, recebeu um convite para visitar Paris, mas elegantemente recusou, porque tinha consciência das condições de escravatura negra na África Ocidental Francesa.
Em merecida homenagem àquele admirável chefe político e primeiro Coronel negro dos sertões brasileiros, Francisco Dias Coelho, foi erigida uma sua estátua, numa praça da cidade de Morro do Chapéu, na longínqua Chapada Diamantina, Bahia.

Lamartine Lima