5 de outubro de 2018 às 11:55h

Hoje é o dia do empreendedor, saiba como um Panda conseguiu voar azul

PANDA BETING: “A RECEITA DE SUCESSO DA VIDA É TRABALHAR COM O QUE SE AMA”

Gianfranco Beting, o Panda: apaixonado por aviação e empreendedor do setor (Foto: Marcus Steinmeyer)

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O empresário, fundador da Azul, é tão apaixonado por aviação que a primeira palavra que disse foi “Varig”. Em entrevista, ele fala de seu trabalho como consultor e de sua vida morando no exterior

05.10.2018|Por

Não é preciso ser adivinho para saber o que o consultor de marketing Gianfranco Beting, conhecido como Panda, faz, pensa – e quem sabe, até sonha – neste exato instante.

Com certeza, ele está entrando ou saindo de aviões, enquanto cria uma nova marca para uma empresa aérea. Isso não quer dizer que se trate de um sujeito previsível. Panda, na verdade, é maníaco por um par de asas.

Diz a lenda que as três primeiras palavras que balbuciou foram “Varig, Varig, Varig!”, trecho de um jingle da antiga companhia brasileira de aviação. Note-se que a testemunha dessa história foi o pai de Gianfranco, o jornalista Joelmir Beting, falecido em 2012.

Não por acaso, Panda foi um dos fundadores da Azul, para quem bolou toda a estratégia de marketing. Em 2016, contudo, promoveu uma guinada na sua vida: mudou-se para Miami e abriu uma consultoria na área de branding. Em entrevista a PEGN, ele compara as experiências de empreender dentro e fora do Brasil e aponta as oportunidades do setor da aviação.

Como você se tornou um dos cofundadores da Azul?
Um amigo publicitário me disse que uns gringos estavam vindo ao Brasil para fundar uma companhia aérea. Ele não se lembrava do nome das pessoas, mas me perguntou: “Já que você entende tudo de aviação, quer conhecer os caras?”.

Eu topei. Numa quinta-feira, em 2008, toca a campainha da minha casa. Abro a porta e quem estava lá? David Neeleman [o principal idealizador da Azul], o cara, em pessoa. Quase cai para trás.

Naquela época, ele já era uma referência para você?
Sim, claro. Eu acompanhava a trajetória do David havia anos, vendo tudo o que fazia e o quanto inovava no setor. Já tinha lido três livros sobre ele. Em 2000, eu viajei pela JetBlue [companhia criada por Neeleman] nos Estados Unidos.

Na ocasião, liguei para minha mulher e disse: “Acabei de voar no futuro da aviação”. Fiquei fascinado pela forma como a empresa trabalhava a marca. Para mim, ele era um pop star. Daí o susto que tomei. Imagine que você diz para o coroinha que ele vai receber a visita de um padre argentino. Quando ele abre a porta, quem está lá? Francisco, o Papa.

Como foi o encontro?
Ele entrou e foi dizendo: “Você tem 45 minutos para vender seu peixe”. Cinco horas depois, concluiu: “Olha, Panda, eu acredito que a gente não pode ensinar paixão para ninguém. E a sua relação com aviões não é de paixão. Ela é doentia. Você é maluco, precisa ser levado para um hospital, internado. Eu nunca vi ninguém tão doido por aviação quanto você. Quer ser meu diretor de marketing?”.

Topei na hora. No dia seguinte, fomos à Embraer. O David estava escolhendo o interior dos jatos que iria comprar. A nossa relação evoluiu de uma maneira muito rápida, sempre marcada por confiança mútua. É assim até hoje.

Como você ficou tão doente pela aviação?
Veio do berço. Meu pai sempre dizia que, um dia, estávamos passando pela avenida Rubem Berta, ao lado do aeroporto, em São Paulo, no fusquinha verde que tínhamos, quando eu disse as minhas primeiras três palavras: “Varig, Varig, Varig!” [refrão de um antigo jingle da companhia aérea].

E sempre fui o mais nerd dos nerds. Quando criança, eu ficava em casa montando aviãozinho de plástico, imaginando que era um piloto da Segunda Guerra Mundial. Muitas vezes, grudava na janela esperando um avião passar. Gostava de adivinhar qual era o modelo só pelo barulho do motor.

Coisas que qualquer criança faria.
Claro. Aos 9 anos, a situação evoluiu. Meu pai me apresentou ao Omar Fontana, o dono da Transbrasil.

O Omar era um sujeito grandão, como se dizia, um tipo exuberante. Ele me viu e começou a me sabatinar. Perguntou o nome dos principais bombardeiros ingleses da Segunda Guerra, onde ficavam as asas de determinado avião em relação à fuselagem.

Enfim, coisas desse tipo. Acertei tudo. Pois ele me pegou pela mão e fomos conhecer o hangar da Transbrasil. A partir daí ele nunca mais desgrudou de mim. E eu me apaixonei por ele e pela empresa, onde trabalhei nos anos 90. O Omar Fontana me ensinou tudo o que sabia, como se eu fosse o filho que nunca teve, já que tinha quatro filhas.

Você também foi o primeiro funcionário da Azul.
Sim. A companhia operou por três meses na minha casa, até se mudar para Barueri, na região metropolitana de São Paulo. Eu desenhei os uniformes, o logotipo, a pintura dos aviões e criei a formulinha secreta do padrão de prestação de serviço da empresa.

Existe uma fórmula secreta para o atendimento da Azul?
Não é secreta, mas tem uma fórmula. É a seguinte: você olha para o cliente e pensa na palavrinha “OPA”. Ela quer dizer “observe, perceba e atenda”. Ou seja, observe quem é a pessoa, perceba quais são as suas necessidades e a atenda da melhor maneira possível.

Agindo assim, o relacionamento com os passageiros fica mais leve, menos engessado. Nesse campo, é preciso ter certa flexibilidade. Por exemplo, é claro que idosos devem ser tratados por “senhor” e “senhora”.

Mas, e se for um tipo surfista um pouco mais velho? Qual o problema de tratá-lo de uma maneira mais informal? Tem companhia aérea no Brasil que exige até que crianças sejam chamadas de “senhor” e “senhora”. Minha ideia era fazer algo com uma identidade diferente.

Pensei em um modelo de serviço mais humano, mais próximo das pessoas. Esse é um estilo mais brasileiro. Nós somos mais informais. Até hoje o OPA é ensinado na Universidade Azul, responsável pelo treinamento das tripulações da companhia.

E como você estruturou um projeto desse tipo?
O David veio com aquele sotaque americano e disse: “Você ter muitas ideias boas, por que não pensar em coisa criativa para a área de serviço?”. Isso era uma sexta-feira e perguntei quando ele queria ver o projeto pronto. “Segunda-feira”, foi a resposta.

Tentei argumentar, alegando que o prazo era muito curto, mas ele não deu bola. Falou que eu teria muito tempo para pensar no fim de semana. A ideia nasceu em um sábado à tarde e fiz um PowerPoint sobre o “OPA”. O objetivo era criar uma coisa genuína, que fosse abraçada pelos tripulantes. Falei para o David que deveríamos valorizar as pessoas. Mesmo porque ele tem uma formação religiosa forte, é um mórmon praticante, e já pensava assim também.

Há três anos, você decidiu sair do Brasil. O que aconteceu?
Eu estava muito chateado com a situação no país. O que mais me incomodava por aqui, e ainda incomoda, são os padrões morais e éticos. É essa leniência com o atraso, as filas duplas, as vantagens que as pessoas buscam a toda hora. No fundo, tudo isso compromete o país.

Acho um absurdo gente que pede desconto e diz que não quer nota fiscal. Para mim, quem faz isso merece ir para a mesma cadeia, em Curitiba, para onde estão indo algumas outras pessoas.

Mas foi a reeleição da Dilma Rousseff, em 2014, que selou a minha decisão. Nessa época, eu já tinha um imóvel em Miami. Minha mulher havia concordado com a mudança e fomos para lá com nossos dois filhos, hoje com 16 e 14 anos. O mais velho, aliás, quer ser piloto comercial. Nem imagino quem o influenciou.

Mas você já havia pensado em morar fora do Brasil?
Essa sempre foi uma possibilidade. Tanto é assim que meus filhos têm nomes “internacionais”, para facilitar uma eventual adaptação fora do Brasil. Eles se chamam Thomas e Martin.

O problema é que, quando estava resolvido que iríamos para Miami, o David me falou: “Quer sair do Brasil, gosta de bacalhau? Então vai morar em Lisboa. Estou comprando a TAP [a principal companhia aérea portuguesa]”. Mas minha mulher não quis saber de mudar de plano. Agora, moro na Flórida e vou todo mês a Lisboa, onde presto serviços para a TAP. É uma cidade fantástica, o melhor lugar do mundo para se viver.

Como foi a adaptação nos Estados Unidos?
Foi bem difícil. Durou 15 minutos! Na verdade, eu sempre gostei da mentalidade americana. As pessoas são muito focadas e eu, muito caxias. Gosto de honestidade, das coisas certas, bem-feitas.

Detesto a malemolência, a esculhambação, a preguiça, o jeitinho. Isso tudo me ofende, me afronta. Me incomoda ver que o Brasil é o país mais desperdiçado do mundo. Ele tem imenso potencial, mas o joga fora todo santo dia.

Chego aqui e fico angustiado. Vejo as paisagens, a música, e ninguém explora isso direito. A gente vai para lugares muito menos pródigos e as pessoas conseguem extrair coisas maravilhosas dali.

Pensa em voltar para o Brasil?
Não. Quero que meus filhos sejam educados em um sistema que é muito superior ao brasileiro.

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